No post
anterior, falamos sobre o mundo invisível dos microrganismos e da importância dos
mesmos na nossa vida. Mencionamos uma técnica nova chamada de metagenômica (ou genômica
ambiental) e agora vamos tentar aprofundar um pouco mais nesse assunto.
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| Metagenomica respondendo as perguntas: Quem está aí? Fazendo o que ? Como estão fazendo? Fonte: http://www.cbs.dtu.dk/researchgroups/metagenomics/mg.jpg |
Como visto
no post anterior, apenas um pequeno percentual (de 1 a 10%) dos microrganismos
que existem por aí podem ser cultivados em laboratório. Mas em primeiro lugar,
como se cultiva microrganismo em laboratório?
Bom, esse é
um assunto da microbiologia clássica: você precisa conhecer os requisitos
básicos que esses seres precisam, como por exemplo, quais nutrientes e em quais
quantidades, qual a concentração de oxigênio (ou gás carbônico) ele precisa,
qual a temperatura na qual ele se desenvolve melhor, e por aí vai.
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| Meios de cultura sólido. Fonte: http://econolab.com.br/v2/wp-content/uploads/2013/04/meio-1024x272.jpg |
Com esse
conhecimento em mente, é possível desenvolver uma “receita” de meio de cultura
(que pode ser líquido ou sólido) e colocar esses microrganismos dentro para que
ele “cresça”, ou seja, se multiplique através de divisão celular (mitose). Um
exemplo é a bactéria intestinal E. coli,
muito estudada e conhecida, que se colocada em um meio de cultura adequado, sob
agitação e a 37 graus, consegue se dividir em 20 minutos, gerando duas células
novas, iguais a que as originou. Isso significa que mesmo que você isole uma única
célula viva de um intestino, você consegue em algumas horas obter milhões delas,
pois o crescimento é exponencial (porém não indefinidamente, pois os nutrientes
e oxigênio se esgotam no meio de cultura após algum tempo).
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| Divisao celular assexuada. Fonte: http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Reinos/Cissiparidade.php |
Mas, em
geral, microbiologia clássica conhece muito das bactérias de importância clínica
(que causam doenças em humanos ou animais), pragas agrícolas e etc. Pouco se
sabe das bactérias inofensivas (ou até mesmo benéficas) presentes nos mais
diversos ambientes do nosso planetinha azul.
Elas
simplesmente não se desenvolvem nos meios de cultura que sabemos fazer até
agora. Então essa falta de conhecimento a respeito delas, dificulta justamente
que se possa cultiva-las e estuda-las para então saber mais sobre elas,
fechando um ciclo.
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| Bactérias "não cultiváveis" - do que elas precisam? Fonte: http://jb.asm.org/content/194/16/4151/F3.large.jpg |
Então o que
poderíamos fazer para contornar isso? Aquilo que nunca fazemos com os aparelhos eletrônicos
que não sabemos utilizar: ler o manual de instruções!!
Células são
máquinas naturais, que seguem instruções codificadas (em sua maioria) em seu
DNA. Hoje temos técnicas para extração e estudo de DNA mesmo em quantidades
mínimas, então a solução é parar de tentar cultivar e apenas pegar o material
ambiental (solo, água do mar, água de algum rio, etc), e extrair e estudar
diretamente esse DNA ambiental.
A partir
daí, podemos sequenciar o DNA para analisar com técnicas de bioinformática,
onde se pode predizer a função de genes, estudar sua evolução, remontar as vias
metabólicas, etc, ou até mesmo clonar esse DNA ambiental, inserindo em bactérias
conhecidas, com a E. coli, forçando
as mesmas a sintetizar a proteína “estrangeira” recém inserida, e assim
estudarmos a sua função.
A partir do
desenvolvimento dessa técnica, um novo mundo, antes invisível se descortinou
para nós. Descobrimos que somos um ecossistema completo, com muito mais
espécies de bactérias em nosso microbioma do que o estimado anteriormente.
Descobrimos que muitos remédios naturais, extraídos de plantas por exemplo, são
na verdade produzidos por bactérias e fungos que habitam essas plantas, e
descobrimos até mesmo que o nosso microbioma intestinal pode nos tornar mais
propensos a obesidade ou diabetes. A eficiência do nosso sistema imune e consequentemente nossa saúde dependem fortemente dessa comunidade microbiana que nos habita.
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| Microbioma Humano. Fonte: http://www.fireboxmedia.com/illustration/ |
Diversas aplicações
podem surgir daí, como por exemplo, usos mais focados de pró-bióticos, no lugar
de antibióticos. Ou até mesmo “transplantes” de microbiomas.
Falaremos
mais sobre essas descobertas em um post futuro.





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