O mundo em que vivemos é dominado pelos
microrganismos. Bactérias, fungos, protozoários. Eles estão presentes em
virtualmente todos os ambientes, inclusive os mais extremos, como em fontes
termais onde a água pode atingir temperatura perto da ebulição, ou mesmo no
fundo do mar, em extremos de pressão e ausência de nutrientes.
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| O mundo invisível das bactérias. |
Bactérias em geral são vistas pelas pessoas
como maléficas, causadoras de doenças, etc. Porém, as bactérias “do mal” são de
longe, a minoria.
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| Bactérias malvadas tramando a destruição da especie humana. Fonte: http://www.123rf.com/stock-photo/bacteria_ailment.html |
O mundo no qual vivemos, foi “engenhado”
basicamente por bactérias. Devemos o oxigênio em nossa atmosfera basicamente a algumas
espécies desses seres tão desprezados (em sua maioria, as cianobactérias). Outras
participam ainda no clico de micronutrientes como Enxofre e Nitrogênio ou degradam
matéria orgânica, fixam o gás carbônico da atmosfera e etc.
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| Cyanobacteria - Anabaena spp. Fonte:http://dkphoto.photoshelter.com |
Nos animais (inclusive o homem), elas ajudam
desde a absorção de nutrientes e até mesmo na defesa contra patógenos.
Em nosso corpo, temos provavelmente o mesmo
número de células humanas e bacterianas. São milhares de espécies que habitam
nosso corpo, desde a pele, cabelo, boca, nariz e intestino, constituindo nossa
microbiota (antigamente chamada de flora). Sem elas, não sobreviveríamos.
Essas pequenas células são verdadeiras máquinas
metabólicas, com uma diversidade de funções incrível.
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| Microbioma humano. Fonte: http://milkiseki.jp/microbioma-humano/ |
Desde milhares de anos atrás, microrganismos são
utilizados pelo homem, mesmo sem saber exatamente o que estávamos fazendo.
Leveduras são utilizadas para produção de pão e bebidas alcoólicas, assim como lactobacilos
para fermentação de leite, desde sempre, constituindo uma maneira rudimentar de
biotecnologia desde então.
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| Fermentação da cerveja: agradeça as leveduras. Fonte: http://comprarbebida.com.br/bebidas-fermentadas/ |
De lá para cá, a ciência evoluiu e passamos a
ter conhecimento mais aprofundado sobre esses seres “invisíveis”. Passamos a
conseguir cultivar espécies isoladas em laboratório, estudar sua fisiologia, bioquímica,
genética. Descobrimos que podemos controla-las e torna-as espécies de robôs,
produzindo exatamente o que desejamos, através de engenharia genética e
biologia molecular.
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| Bactéria E. coli, geneticamente modificada para produção de biodiesel. Fonte: Diesel (Marian Littlejohn/VEJA) |
Sequenciamos genomas de milhares desses organismos e com
isso entendemos melhor a função de cada gene e via metabólica.
Foram desenvolvidos microrganismos
geneticamente modificados para produção de antibióticos mais potentes, proteínas
fluorescentes para estudos de imagem celular, e até mesmo insulina, tornando
mais barato, prático e eficiente o processo e melhorando a vida de diabéticos,
que antes dependiam de insulina retirada de porcos, por muitas vezes causando até
alergias.
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| Ilustração de como foi possível inserir o gene da insulina humana no genoma de uma bactéria. Fonte: https://www.nlm.nih.gov |
A principal limitação no estudo de microrganismos é que não sabemos exatamente como cultivar a maior parte deles em laboratório.
Cada organismo tem necessidades especificas, por exemplo, de nutrientes, concentração
de oxigênio e temperatura para que cresçam e se multipliquem de maneira saudável.
Os microrganismos mais clássicos, como os chamados coliformes fecais por
exemplo, são facilmente cultiváveis, porém cerca de 90 a 99% dos organismos
ambientais simplesmente não crescem nos meios de cultura que temos disponíveis.
Com isso, fica difícil obter células suficientes para estudos in vitro e para
sequenciar genomas, por exemplo.
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| Meios de cultura para bactérias, podem ser líquidos ou sólidos (em placa). Fonte: http://phoneutria.com.br/site2/produto/meios-de-cultura |
Muitos desses organismos produzem produtos
naturais de grande interesse, como antibióticos ou compostos com atividade anticâncer
por exemplo. Outros produzem enzimas que degradam celulose e poderiam ser
utilizados para degradar melhor a cana de açúcar, aumentando a quantidade de álcool
(etanol) obtido por cada quilograma de cana.
Só que se não conseguimos cultiva-los, não conseguimos
obter seus produtos. Então para contornar isso, foi desenvolvida uma técnica chamada
de metagenomica, ou genômica ambiental (falarei mais sobre isso em um próximo
post). Com essa técnica é possível acessar o DNA da comunidade microbiana
completa de determinado ambiente, sem se preocupar em saber de qual organismo
veio cada trecho de DNA, nem isolar e cultivar nenhum deles. Busca-se genes ao invés
de organismos. Com isso, podemos através de engenharia genética e biologia
molecular, inserir esses genes ambientais em bactérias tradicionais e cultiváveis,
como os coliformes fecais, clonando e expressando esses genes para obter seus
produtos de interesse biotecnológico.
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| Metagenomica: tornou possível acessar DNA ambiental sem cultivo individual dos microrganismos. Fonte: http://assets.illumina.com/ |
Mais recentemente, com o advento da biologia
sintética, podemos simplesmente utilizar uma célula de alguma bactéria cultivável,
retirar todo o seu DNA e inserir um DNA sintético, gerado em laboratório, com
genes de interesse. Esse tipo de experimento já vem sendo desenvolvido, como o
realizado pelo Craig Venter, onde foi inserido um número mínimo de genes necessários
para a vida de um organismo, sintetizados em laboratório, numa célula de bactéria
do gênero Mycoplasma, gerando uma forma de vida artificial. Esse vídeo explica de maneira didática como isso pode ser
feito.
Explicarei melhor os avanços desse fascinante
campo num próximo post.
Até a próxima.









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