sábado, 2 de setembro de 2017

FDA aprova a primeira terapia gênica nos EUA

Esta semana, o FDA (órgão Americano responsável pela regulamentação de todos os tratamentos médicos nos EUA) aprovou a primeira opção de terapia genética nos EUA, para tratamento de alguns de leucemia linfoblástica aguda (ALL).

Os jornais do mundo foram tomados por notícias a respeito desse grande avanço, porém, dessa vez o alarde não foi sem motivo (apesar dos tradicionais exageros).  

Apesar do preço exorbitante (cerca de meio milhão de dólares), dos possíveis efeitos colaterais, e de ser um tratamento apenas indicado para casos em que o paciente não responde as terapias convencionais, esta nova terapia demonstra apenas o começo de uma nova era na medicina.

O tratamento consiste em retirar, a partir de amostras sanguíneas, células do próprio paciente (linfócitos T) e modifica-las geneticamente, programando-as para reconhecer e destruir as células cancerosas, combinando assim imuno-terapia (já muito utilizada contra diversos tipos de câncer) com terapia gênica.
Essas novas células reprogramadas são então chamadas de CAR-T (CAR vem de “chimeric antigen receptors” ou receptores de antígeno quiméricos).


CAR-T programada para reconhecer uma célula cancerosa

Baseado nos estudos clínicos feitos até o momento, as chances de sobrevida de até 6 meses são de 89%, e de 79% de sobreviver pelo menos um ano (estudo realizado com 63 pacientes).

A primeira coisa a ser esclarecida aqui: o critério de cura em câncer é sempre de longo prazo. Não se pode falar em cura num prazo de um ano. Isso não significa que o tratamento é apenas eficaz para dar alguma sobrevida, mas apenas que ainda não observamos por tempo suficiente. A empresa farmacêutica (Novartis) que desenvolveu o tratamento continuará os estudos clínicos para acompanhar a evolução e também monitorar efeitos colaterais.

Até o momento, o efeito colateral mais preocupante é a síndrome de liberação de citocinas, que é potencialmente grave e pode ser fatal se não for tratado rapidamente.  Nesta síndrome, há liberação massiva de mediadores químicos do sistema imune, causando uma hiper-estimulação do mesmo. Por isso, para ministrar o tratamento, as clinicas e hospitais precisam ser certificados pela Novartis. Alguns óbitos ocorreram em estudos de tratamentos do mesmo tipo, conduzidos por outras empresas.

Mas então, o que difere esse tratamento de todos os outros?
Ao contrario de todos os tratamentos existentes até então, ele não é baseado em compostos químicos, nem é um tratamento genérico onde exatamente as mesmas substancias são utilizadas para todos os pacientes.
Como dito anteriormente, nesse tratamento as células do próprio paciente são “programadas”, através de modificação genética, para caçar e destruir as células cancerosas.  Isso é importante principalmente pois dessa forma não há rejeição pelo paciente as suas próprias células, e também outros tipos celulares não são afetados.

A modificação genética consiste em inserir nos linfócitos T do paciente, genes que codificam os tais receptores quiméricos (CAR) que reconhecem uma proteína específica (neste caso, CD19) de superfície nos linfócitos B (que são as células que estão se multiplicando fora de controle no caso da leucemia ALL). Assim esses linfócitos são multiplicados no laboratório e inseridos em grande quantidade na corrente sanguínea do paciente, e então essas novas células passam a buscar e destruir os linfócitos B, controlando a doença e em alguns casos podendo levar à cura. 
O grande frisson sobre tudo isso é que essa técnica pode, em teoria, ser utilizada para tratar qualquer outro tipo de câncer. Porém, na prática, os resultados contra tumores sólidos se mostrou decepcionante, sendo necessárias melhorias.
De toda forma, diversos tipos de câncer de células do sangue já estão sendo “atacados” por essa técnica. Só nos resta esperar e torcer.

Ilustração representando o tratamento com células CAR-T para leucemia ALL
                                   







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